“Crónicas de Lisboa” O Regresso do Sebastianismo? | Artigo de Serafim Marques

“Crónicas de Lisboa” O Regresso do Sebastianismo? | Artigo de Serafim Marques

Muitos são os provérbios e citações que usamos no quotidiano e servimos-nos deles, para facilitar a comunicação e, assim, atingirmos o objectivo principal da comunicação, nas diversas formas (escrita, etc). Sobre alguns deles nem nos questionamos da sua origem.

Por exemplo:

i) “levar a água ao seu moinho”, terá origem na figura do moleiro, com o seu moinho movido a água e a qual é necessário ser desviada do seu curso,  para mover as mós que moem o cereal, mas, no nosso dia a dia,  prefigura um gesto egoísta ou individualista;

ii) “água mole em pedra dura tanto dá até que fura”,  este  significando persistência, porque a água, apesar de mole, com o tempo consegue corroer a pedra;

iii) “Em lua-de-mel”, período que terá vivido o actual líder do PS, porque, para ele, acabou;

iv) a “travessia do deserto”, percurso desgastantes dos lideres dos partidos derrotados;

v) “caiu o Carmo e a Trindade”, que significa, desgraça, surpresa, confusão, etc , podendo aplicar-se ao terramoto que a abalou o PS e o lançou numa enorme luta pelo poder, num período em que as prioridades do pais exigiriam a conjugação de esforços partidários.

Muitos provérbios ou citações são atribuídas a grandes figuras mundiais. Por exemplo, “levar a carta a Garcia” é uma dessas citações. Na guerra entre os EUA e a Espanha,a propósito da despótica colonização espanhola de Cuba, ocorreu o episódio que deu origem à frase “levar a carta a Garcia” que significa cumprir eficazmente uma missão, por mais difícil ou impossível que possa parecer.De permeio a este conflito, havia um General, de seu nome Garcia, que liderava um grupo de nativos cubanos revoltados e que andava algures pelas matas da ilha e cuja comunicação, pelos meios da época, seriam quase impossíveis. Assim, só um corajoso, destemido e fiel mensageiro poderia levar uma mensagem do presidente dos USA- McKinley. Tratava-se então de “levar a carta a Garcia” e, para isso, chamou um tal soldado Rowan e passou-lhe uma carta para ser entregue, em Cuba, ao comandante rebelde. Pelo que se conta, Rowan, sem nada questionar, meteu a missiva numa bolsa impermeável e partiu para Cuba. Percorreu montes e vales, selvas e praias, mas, quatro dias depois, entregou a carta a Garcia e regressou aos EUA para dar conta do cumprimento da missão ao seu presidente.

Porque foi escolhido Rowan para esta importante e difícil missão, isto é, fazer chegar a mensagem ao seu destinatário? Porque o seu chefe conhecia as suas qualidades, nomeadamente, coragem, lealdade e dedicação, capacidade de sacrifício, força e agilidade e muitos outras competências necessárias para aquela árdua missão. Características que são apanágio dos melhores, nas suas funções sócio-profissionais, sem esquecer também outros papeis que desempenham na vida, como cidadãos, etc. Rowan não exigiu condições e assumindo a importância da sua missão, assimilou aquilo que, muito mais tarde, veio a definir o que deve ser o espírito de missão de cada cidadão : ” Não perguntes o que o teu País pode fazer por ti, mas sim o que tu podes fazer pelo teu Pais”, célebre frase de J. F. Kennedy, proferida em 1961 no seu discurso de tomada de posse como presidente dos USA e que deveria ser “interiorizada” por todos nós, mas acima de tudo por aqueles que “tudo exigem e nada dão”, porque afinal de contas, o valor dum Estado é o valor dos indivíduos que o compõem, isto é, os seus cidadãos são e fazem por ele. Mas o que poderemos fazer pelo nosso país e, consequentemente, por nós e por todos os portugueses? São tantas as coisas, mas acima de tudo deixarmos-mos da inércia de tudo esperar “deles”, sejam eles os políticos ou outros cidadãos de quem dependemos da “cadeia” da organização social.

É verdade que os políticos, na governação ou na oposição, estão desacreditados, mas a culpa será só deles? Não será também nossa, até porque eles são “filhos de pais portugueses”, criados e educados no país, tal como nós? As sociedades democráticas e desenvolvidas atravessam uma profunda crise que vai para além da crise económica e financeira, isto é, uma crise de identidade, de estratégia, de lideranças, de solidariedade, etc e que os políticos e os partidos dão, aos cidadãos donde emanam, um mau exemplo. A luta (fratricida?) agora iniciada no PS, é um recente exemplo de que os políticos colocam, em primeiro lugar os seus interesses pessoais, depois os partidários e só por fim os interesses do país e dos cidadãos. António Costa, a quem não basta ser presidente da autarquia de Lisboa, quer outros voos e, ao que tudo indica, será ele o futuro Primeiro-Ministro dum governo de bloco central, porque a dispersão de votos do eleitorado não deixará outra alternativa governativa. Aliás, esta será a formula de governação que melhor serviria os interesses do país, mas que o individualismo partidário torna quase numa utopia.

A António Seguro vs António Costa (AC), se podem aplicar as citações acima, mas será que AC conseguirá “levar a carta a Garcia”, isto é, fazer com que a votação no PS faça dele o partido mais votado e, dessa forma assumir a liderança da governação? E que, acima de tudo, seja o líder de que o país precisa para seguir outros caminhos. Mas julgar-se-à ele um “D. Sebastião”? “Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, provérbio muito forte e que, infelizmente e agora ainda mais, tem plena aplicação no nosso país e que, por força dessa “falta de pão”, sobressaem ainda mais os interesses individuais, corporativos e partidários.

E, em redor do “barco onde navegamos”, as águas estão muito agitadas e com muitos tubarões por perto (credores e mercados financeiros) e corremos o risco de nos afundarmos com ele, se não mudarmos as nossas atitudes e congregarmos esforços que, de individuais, se transformarão em colectivos revolucionários. Mas não queremos “revoluções” que acabem em Otelos, Vascos Gonçalves, etc. Nem dum “D.Sebastião”, que António Costa se poderá julgar. Precisamos apenas de sermos todos mais portugueses, mas sobressaindo as virtudes deste povo que já venceu muitas crises na sua longa história.

Queixamo-nos da falta de “políticos à altura”, mas ou não os escolhemos convenientemente ou nem lhes damos tempo de governarem. Aliás, os governantes sabem que estão sempre a prazo ( muito curto), pelo que procuram fazer aquilo de que o povo gosta, mesmo que isso corresponda a hipotecar o futuro. Depois, na hora de “prestarem contas”, são outros a chamarem as todo poderosas instituições salvadoras da bancarrota (FMI, UE, BE = Troika) provocada por erros, oportunismos e populismos de muitos dos políticos que já se esconderam, mas estão sempre atentos e à espera de voltarem ao poder. Muitos deles, porque nunca fizeram outra coisa na vida, estão sempre a “conjurar na sombra” contra os seus sucessores e à espera de voltarem ao poder.

Será sina nossa ou consequência dos nossos erros colectivos também? Estes quarenta anos de governação democrática são um excelente exemplo, agora ainda mais evidenciado com o que se passa no PS.

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