A crise no PS, por António D’Orey  Capucho

A crise no PS, por António D’Orey Capucho

A CRISE NO PS

Longe de mim o propósito de intromissão nas questões internas do PS ou de qualquer outro Partido, tanto mais que a minha condição de independente afasta-me naturalmente da disputa interna sobre a liderança do actual maior partido da oposição.

Sem embargo, o simples facto de o PS ser hoje e historicamente um Partido essencial do sistema político, não apenas nos permite como nos exige uma reflexão desapaixonada sobre as incidências a nível nacional da crise que atravessa.

Não se questiona a legitimidade formal e política da actual direcção nacional do PS. Isso não está minimamente em causa.

Mas não podemos ignorar que a marcação apenas para 28 de Setembro da consulta aos militantes e simpatizantes sobre a personalidade que o PS indigita como candidato a Primeiro-Ministro, vai provocar uma limitação inevitável da capacidade de acção política deste Partido, concentrado que estará numa disputa interna muito intensa e desgastante. Isto num cenário de forte crise política em que era exigível que os Partidos, especialmente os do chamado “arco da governação”, estivessem inteiramente concentrados não tanto nas questões internas mas sim nos problemas do País e na forma de os ultrapassar, desejavelmente por via de consensos, tanto quanto possível alargados às entidades mais representativas da sociedade civil.

Note-se que, na hipótese de a escolha não recair no actual Secretário-Geral, os problemas internos do PS podem não ficar formalmente ultrapassados a partir daquele sufrágio, pois António José Seguro já afirmou que apresentaria a demissão, como é natural. Esta situação provocará a convocação de um Congresso e de eleições internas, ou seja, o processo de normalização da vida interna do PS poderá arrastar-se pelo menos até Novembro. É manifestamente um período excessivo e que pode ter impacto muito problemático na vida política nacional.

Sobre as causas da situação interna do PS tenho assistido com alguma perplexidade a um conjunto de explicações muito elaboradas e complexas.

Tenho para mim que as causas são bem simples: creio que nos dois maiores Partidos, ambos com vocação para exercerem o poder e que têm assumido alternadamente a governação, vem à tona um indisfarçável “instinto de sobrevivência” quando os respectivos militantes duvidam da capacidade do líder em exercício ganhar as eleições legislativas subsequentes, ao mesmo tempo que surge uma alternativa interna que consegue captar o sentimento inverso. Esse sentimento favorece naturalmente a procura de lideranças alternativas que possam ser ganhadoras.

É precisamente o que se passa no seio do PS na sequência da magra vitória obtida nas eleições para o Parlamento Europeu, apesar da desastrosa votação que mereceu a coligação do Governo. Ao impacto negativo destes resultados nas bases socialistas adicionaram-se as sondagens que se seguiram e que evidenciam uma intenção de voto no PS inferior ao somatório das intenções de voto no PSD e no CDS.

Perante estas perspectivas sombrias para o PS, que alimentaram no seio de muitos socialistas o receio de uma próxima derrota eleitoral após meses de uma forte expectativa de regresso ao poder nas próximas legislativas, foram criadas as condições para o surgimento de uma alternativa ao actual líder do PS que consiga criar a convicção de que é vencedora. E obviamente isso está a ser conseguido…

Seja qual for a evolução e o resultado das chamas “primárias” no seio do PS, o que importa é que a crise interna seja ultrapassada tão brevemente quanto possível, pois não é nada saudável para o regime democrático que a governação se exerça sem uma oposição democrática forte e credível, papel que cabe essencialmente, nesta conjuntura, aos socialistas.

* António D’Orey Capucho, Colunista Especializado do Jornal de Vila de Rei e do Jornal de Oleiros

António D' Orey Capucho

António D’ Orey Capucho

 

 

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