VISTO DO CENTRO – Ex-pírito Santo

VISTO DO CENTRO – Ex-pírito Santo

“Há duas coisas que ninguém perdoa: as nossas vitórias e os nossos fracassos.” (millôr fernandes)

Ex-pírito Santo

O Dr. Ricardo Salgado, foi, durante uns dias, capa de práticamente todos os órgãos de comunicação, apresentado como um vilão que, presumivelmente, terá cometido os crimes de; burla, abuso de confiança, falsificação, branqueamento de capitais, etc. E, digo presumivelmente, porque, até prova em contrário, o Dr. Salgado será, também presumivelmente, inocente.

O Dr. Ricardo Salgado foi, ao longo dos últimos 30 anos, após a reprivatização, em 1984, da banca nacionalizada em 1975, a “cara” do Grupo Espirito Santo.

Durante este período construiu um grande grupo financeiro, cuja credibilidade se mantinha, até há relativamente pouco tempo, acima de qualquer suspeita. Conquistou igualmente, com alguma facilidade, grande poder junto de uma classe política facilmente deslumbrável e venal, sobre a qual, encantando-a com convites para festas, férias, eventos vários da chamada alta sociedade, passou a deter poder de influência, elevando o GES a grupo financeiro do estado, construindo desta forma, um polvo de influências, conseguindo até a nomeação de alguns dos seus quadros superiores para cargos governamentais, sendo o grupo chamado a prestar assessoria a diversos negócios do estado, entre os quais o nebuloso negócio da compra dos submarinos.

Mas, como mais tarde ou mais cedo, acontece com todos os impérios, o GES começou a desmoronar-se como um castelo de cartas ao sabor do vento, quando alguns dos seus pilares, nomeadamente a empresa Rioforte, assumiram a incapacidade de honrar compromissos, relacionados com operações financeiras nas quais se havia envolvido.

E, como é normal, falhando um pilar, todo o restante edifício fica numa situação de instabilidade e ameaça ruir, levando a que venham à luz do dia, outras fragilidades e irregularidades da estrutura.

Como se costuma dizer, e, no caso do GES, ainda a procissão vai no adro, já o banco Espírito Santo apresenta, no primeiro trimestre deste ano, um prejuízo de cerca de três mil e quinhentos milhões de euros.

Esta situação, por si só, não constitui uma ameaça aos depositantes do banco, uma vez que se reflectirá no valor dos capitais próprios da instituição e, por esse motivo, no valor das suas acções, atingindo sim o património dos accionistas.

A situação poderá, contudo e ao contrário do que foi apregoado por alguns (i)rresponsáveis políticos, vir a penalizar, uma vez mais, o bolso dos contribuintes portugueses.

De facto, para obedecer às regras em vigor para a banca, o BES deverá necessitar a curto prazo de um aumento de capital.

Ora, se os actuais accionistas não estiverem interessados em meter mais dinheiro no banco, e, se não aparecerem investidores externos interessados nessa operação, como, por exemplo, o ditador da Guiné Equatorial, o aumento de capital será feito com recurso à parte do empréstimo da troika destinado à recapitalização do sistema bancário. Chegados aqui, e como esse dinheiro tem de ser reembolsado, se o banco não reunir condições para o fazer, será o dinheiro dos nossos impostos a pagar.

Dizem, os mais inocentes que o estado ficará a ser accionista do banco, o que para o contribuinte comum não aquece nem arrefece, porque o seu dinheiro não o terá de volta.

O caso do GES, pela sua complexidade e ramificações, ultrapassa as fronteiras do nosso espaço financeiro, tornando-se num problema internacional.

O Dr. Ricardo Salgado, continuará a ser, até prova em contrário, inocente dos crimes que lhe apontam.

Apesar do descalabro do GES, ainda lhe devem sobrar umas poupanças para contratar advogados hábeis no aproveitamento das ineficácias da justiça portuguesa, que consigam arrastar o processo e tornar inconclusiva a acção dos investigadores.

Como nota final, achamos curioso que, jornalistas, comentadores, e outros especialistas televisivos, que, durante 30 anos quase beijaram o chão que o Dr Salgado pisava, venham agora crucificá-lo na praça pública.

O desenvolvimento deste caso decerto proporcionará análises futuras

 

Até breve.

* António Graça, Sub-Director

Sub-Director: António Lopes Graça

Sub-Director: António Lopes Graça

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