Uma questão de confiança

Uma questão de confiança

Querida Lusitânia

Por António L. Graça

“Nunca me meti verdadeiramente na política, porque,
às vezes, as pessoas têm que fazer coisas que desrespeitam a respeitabilidade”(Prof. Manuel Jacinto Nunes)[i]

UMA QUESTÃO DE CONFIANÇA

De acordocom sondagens efectuadas no âmbito dos países da União Europeia, os portugueses estão entre os europeus que menos confiança têm na sua democracia e, ainda ,menos, no seu governo.

A confiança é um dos suportes fundamentais de um sistema democrático, seja ela a confiança dos cidadãos nas suas instituições, ou a confiança das próprias instituições entre si.

Vem isto a propósito das recentes afirmações do presidente da república em Arganil, nomeadamente:

“ espero ter sido informado atempadamente pelo governo, com informação relevante sobre o caso BES.

Apesar de alguns comentadores, supostamente independentes, terem “ assobiado para o ar” sem dar o devido relevo a estas palavras do venerando chefe de estado, a verdade é que, mesmo que agora venham dizer que o que todos ouvimos não foi exactamente o que ele disse, elas transmitem um sentimento de desconfiança do mesmo, relativamente à clareza e rigor da informação que lhe foi prestada pelo governo de Passos Coelho, desconfiança essa da qual, perdoe-se-me a falta de modéstia, eu partilho inteiramente.

A história do caso BES/GES, como tudo o que vem do actual governo, tem detalhes e consequências escondidos, os quais, mais tarde, porão a nú as deficiências de todo o processo e os custos que delas, uma vez mais, resultarão para os contribuintes.

Este processo, pelas lacunas e imprecisões de que enferma, vai fazer a alegria de muitos escritórios de advogados e a tristeza dos portugueses, sem que haja obrigatoriamente uma relação de causa/efeito entre os dois estados de espírito.

A quantidade de processos judiciais a que esta irá dar lugar, arrastar-se-á por muito tempo, contribuindo fatalmente para a desvalorização do Novo Banco, e, consequentemente, apesar do empenho e profissionalismo do Dr Victor Bento, para a dificuldade em recuperar o dinheiro que o governo envolveu nesta operação, sobrando para o contribuinte o prejuízo.

Um indicador de confiança, desta vez, na justiça, é o recente desfecho do processo “ Face Oculta”.

De facto, o tribunal do Baixo Vouga condenou a prisão efectiva todos os arguidos, sem olhar a caras, estatuto ou amizades dos ditos.

Pode ser um importante indicador de confiança, mas, não deitemos os foguetes antes da festa.

Ser condenado é diferente de cumprir pena. Agora seguir-se-ão recursos atrás de recursos, os quais , a serem tratados com a habitual lentidão das instâncias a que apelarão, correrão o risco  de fazer prescrever as respectivas condenações.

Ainda assim a acção deste tribunal serve, para já, para apontar o dedo aos criminosos, e tratá-los como tal, ao contrário do que sucede, por exemplo, com os criminosos do caso BPN, a maioria dos quais, por lentidão da justiça, continua à boa vida, a gozar o produto dos seus roubos.

Até breve

* António Lopes Graça, Sub – Director

Sub-Director: António Lopes Graça

Sub-Director: António Lopes Graça

 

 

[i] Ex-Governador do Banco de Portugal (1926-2014)

 

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