Xadrez da Síria…

Xadrez da Síria…

Jogos de guerra na Síria

A União Europeia e os Estados Unidos da América estão mais preocupados com o aumento da influência da Rússia e dos seus aliados iranianos no Médio Oriente que com o combate aos terroristas do Estado Islâmico.

Desde o início da intervenção militar russa que as vozes de preocupação na Europa e nos Estados Unidos têm subido de tom.
Começaram por contestar que a intervenção russa tivesse como alvo principal o Estado Islâmico.
Eficácia Russa
Rapidamente se viu que a aviação russa, em poucas semanas, actuou com mais eficiência que os aviões ocidentais em meses: só nas últimas 24 horas foram destruídos 53 alvos do Daesh (acrónimo árabe do Estado Islâmico).
O que levanta uma questão preocupante: tendo a força aérea dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus meios aéreos tão ou mais modernos que os dos russos, por que razão não actuaram com mais eficácia?
A razão é muito simples, a guerra contra o Estado Islâmico não é a principal preocupação e objectivo do Ocidente na região.
A União Europeia, Estados Unidos da América, Turquia e os seus aliados da Arábia Saudita e outras monarquias sunitas do Golfo – que tiveram um papel preponderante no estabelecimento do Estado Islâmico – estão mais preocupada com o reforço da influência iraniana no Iraque, Síria e Líbano, que a manutenção do regime de Bashar al–Assad significaria, do que com a existência do Estado Islâmico.
Navio Russo Tartus

Navio Russo Tartus

Não é, pois, de admirar que a principal preocupação expressa pelos ministros europeus reunidos ontem no Luxemburgo, numa reunião nominalmente convocada para coordenar a luta contra o Estado Islâmico, seja exigir que a “Rússia deixe imediatamente de bombardear os grupos contrários ao regime sírio” e afirmar que o governo de Damasco não faz parte da luta contra o EI.

A questão que se coloca é a seguinte: e a União Europeia faz?
A “jovem ” Federica Mogherini
A alta representante da diplomacia europeia, a francesa Federica Mogherini, declarou. à entrada da reunião, que “a intervenção russa [na Síria] mudou as regras do jogo”.
Até então, as regras do jogo tinham sido: os ocidentais bombardeavam, sem muitos resultados, o EI, e armavam e treinavam os opositores ao regime sírio, alguns muito próximos do Daesh.
Agora, os russos bombardeiam esse mesmo Daesh, a força mais eficiente que se opõe à ditadura de Bashar al-Assad, e apoiam a intervenção militar do exército sírio, as milícias xiitas libanesas do Hezbollah e os destacamentos da guarda revolucionária iraniana.
De facto, as regras de jogo alteraram-se: tanto os EUA e os seus aliados como os russos dizem estar a combater o Estado Islâmico mas, no terreno, a dinâmica do conflito pode levar a um combate directo entre as duas superpotências.

Porta Aviões George Bush

Porta Aviões George Bush

Neste momento, a ofensiva das tropas governamentais sírias visa dois eixos principais: a cidade de Palmira, ocupada pelo Estado Islâmico, e avançar em zonas da província de Hama, em regiões dominadas pela Frente Nusra, representante local da Al-Qaeda e do Exército Livre da Síria, armado pelos ocidentais.
No domingo, durante esses combates na região de Hama, morreu um importante comandante das milícias xiitas do Hezbollah. Hassan Mohammad Hussein al-Hajj foi enterrado ontem, com honras militares e direito a directo televisivo pelo canal de televisão do partido xiita que faz parte do governo do Líbano. caças russos
Apesar desses avanços em zonas com menor presença do Estado Islâmico, o objectivo militar das próximas semanas vai ser a reconquista da cidade de Palmira ao EI. Segundo Robert Fisk, um dos maiores especialistas na região e correspondente do “Independent”:

Para Putin, uma ofensiva sobre Palmira será um símbolo épico da nova projecção da Rússia no Médio Oriente.
Para Obama, Cameron e o resto dos líderes ocidentais, que se enterraram na Síria nos últimos seis anos, não conseguindo derrubar Assad nem derrotar o Estado Islâmico, assistir à recaptura de Palmira com a ajuda da Rússia seria uma lição demasiado humilhante.”
Por enquanto, o combate entre russos e americanos faz-se por terceiros: os russos bombardeiam rebeldes islamitas armados pelos ocidentais e os rebeldes islamitas destroem tanques russos, fornecidos por Moscovo ao exército da ditadura síria.
Jogos perigosos
Mas ninguém pode garantir que, com aviões russos e ocidentais no ar, não vá haver confrontos directos.
Segundo o jornal britânico “The Times”, o Kremlin convocou o adido militar britânico devido a informações de que os aviões da força aérea britânica estavam autorizados a abater caças russos.
Foi pedido ao diplomata que justificasse oficialmente a colocação de mísseis ar-ar nos Tornados britânicos estacionados no Iraque.
* JV e fontes
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