A muralha social, por Joaquim Vitorino

A muralha social, por Joaquim Vitorino

 

A insustentabilidade da segurança social no nosso país, tem que ser urgentemente encarada com realismo e sem “bravatas” vindas de qualquer quadrante político; é uma situação de enorme preocupação, que a curto prazo afetará todos os portugueses.

O inevitável corte nas reformas, é um tema que foi subtilmente abordado pelo governo e entrou imediatamente em discussão; o mote está dado, e reveste-se de um enorme “melindre”.

Por conseguinte, merece uma reflexão séria e não deve ser explorada politicamente pela oposição; porque a garantia de uma reforma digna de acordo com a real contribuição de quem a usufrui, representa a “ Grande Muralha Social” que não pode ser demolida; sendo a pedra basilar de qualquer democracia (digna desse nome).

A sustentabilidade das reformas, está a ser assegurada com o recurso à dívida pública e pelos filhos e netos de quem as recebe, se no momento têm a “sorte” de ter trabalho; enquanto os seus descendentes e eles próprios não lhe terão acesso, se não for feito um urgente ajustamento.

É preciso não esquecermos, que muitos daqueles que recebem reformas de acordo com a contribuição que deram, estão a sustentar os filhos desempregados e os filhos destes, provocando um grande desequilíbrio financeiro nas famílias, correndo-se um sério risco de ao repor a justiça, a possam vir a agravar ainda mais, lançando na mendicidade milhões dos nossos futuros reformados, a que se juntam aqueles a quem não podem prestar ajuda como é o caso dos filhos e netos.

A situação é muito grave, e vai incidir a curto prazo no comportamento dos portugueses; cujo conceito de ser português ainda anda um pouco elevado, não obstante o estado da nossa economia e da educação não confundir com cultura, porque andamos há muito tempo afastados dela, e, acima de tudo o nosso comportamento social familiar e de grupos, que coloca Portugal numa lista negra no topo da Europa que em nada nos abona.

Os últimos acontecimentos na sociedade portuguesa, tem saltado para fora das nossas fronteiras e não são casos esporádicos. Não os vou mencionar, mas constituem uma verdadeira tragédia nacional.

Ainda assim, temos que reconhecer que existe uma contradição; os nossos emigrantes são a outra face de um Portugal bem diferente; disciplinados e trabalhadores, eles são em todo lado a nossa bandeira coletiva, que vai limpando as notícias menos boas deste país em desalinho.

Desde jogadores de futebol, cientistas espalhados pelas melhores Universidades de todo o Mundo, à frente de projetos ambiciosos em todas as áreas de investigação, Gestores e Banqueiros dos mais cobiçados, a altos cargos nas Instituições Internacionais, enchem de perplexidade os cidadãos de outros países que olham para aqueles que vivem aqui no retângulo como um povo inculto, ignorante, malcriado, agressivo e muito violento; para além de sermos dos mais corruptos e pobres de toda a Europa.

Não nos iludamos, somos o país com a mais baixa escolaridade de toda a Europa; o que se traduz em ignorância a todos os níveis.

Portugal abandonou a sua marca principal, que era reconhecida por sermos um país de bons costumes; não podemos argumentar que a causa é da nossa pobreza forçada, que vai sempre desaguar num pântano de agressividade e violência que será transmitida às próximas gerações, se não começarmos imediatamente a combate-la; sendo as escolas, o local apropriado para uma urgente terapia de choque. Portugal, tem que regressar à realidade, não podendo continuar a contrair dívida e alienar património para pagar reformas altíssimas a pessoas que já são milionárias; alguns foram beneficiados com cargos públicos onde fizeram fortunas; ou ainda, a continuação de pagamento de reformas a pessoas que nem contribuíram com 1/3 para o que recebem; a que se junta a posse de um elevado património pessoal e familiar.

Num Estado democrático e numa emergência como a nossa, a questão tem que ser colocada com toda a “crueza” mas com um elevado sentido de justiça; sem a qual, será o colapso da própria democracia em que o Estado social assenta.

Qualquer partido político que tente tirar dividendos desta “tragédia”, peca por pura demagogia, e, está apostado na continuidade de um país virtual ao serviço dos seus interesses, contra a esmagadora maioria dos portugueses.

Esta deveria ser, uma questão a debater pela sociedade civil urgentemente, porque deixar passar mais tempo sem a abordar, pode ser o “funeral” da débil sustentabilidade do sistema social em Portugal.

Mexer em reformas que já se encontram nos níveis mínimos de sobrevivência, é lançar o país num caudal de pobreza e subserviência inaceitável, uma fatura que terá que ser paga pelas nossas crianças. É preciso que os portugueses não se esqueçam disso, porque, elas “as crianças”, com toda a certeza não se vão esquecer.

Joaquim Vitorino

Joaquim Vitorino

* Joaquim Vitorino/ Jornalista/Cronista e Blogger  

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