A rádio nº 1 e o casal das águas na A1

A Rádio nº 1 e o casal das águas na A1

Às 8.40h da manhã do dia 5 de janeiro, enquanto fazia o meu “zapping radiofónico” a caminho do trabalho, sintonizei a autoproclamada rádio nº 1 de Portugal.
Chamou-me a atenção o facto de em pleno horário nobre estar instalada uma onda de solidariedade em prol do casal que distribuiu águas na A1.
O apelo era frenético e dirigido de forma eficaz:
Os portugueses deveriam transferir solidariamente um pouco das suas poupanças para a conta do casal que distribuiu águas na A1.
-O NIB era referenciado diversas vezes, remetendo para especificações ou dúvidas dos cidadãos no Facebook da Rádio.
Esta onda de solidariedade acabou por contagiar os ouvintes da rádio nº1 em Portugal que rapidamente se apressaram a transferir dinheiro, a oferecer diversas oportunidades de trabalho ao casal, alimentos, etc…
Tudo isto foi transmitido, entre as frases sentidas e as vozes trémulas de sentimento do locutor que repetia que era aquela a verdadeira razão da equipa da rádio se levantar todos os dias e ir para o estúdio fazer rádio.
O casal era entrevistado pelo humorista nº1 com várias graçolas favoráveis às doações em dinheiro para o dito casal.
No meio da entrevista o casal soltou uma frase que me alertou, queixando-se da vizinhança da sua freguesia e do sentimento de ódio pelo mesmo.
Foram estas declarações do casal que me fizeram refletir que havia algo de errado para a vizinhança fazer um juízo de valor negativo ao ponto de virem falar para a rádio nessa questão. Talvez fosse a minha experiência de ex-presidente de junta a falar…
Mas pensei para mim que seria impensável que a rádio nº 1 de Portugal, em horário nobre, com os seus jornalistas de craveira, não levassem um assunto sobre alguém que pede dinheiro para as suas contas pessoais, sem investigar um pouco dos seus antepassados criminais ou pelo menos sem ouvir os seus vizinhos…seria uma irresponsabilidade total…
Não posso ignorar a atitude nobre que o casal teve em distribuir água na A1 em tempo de incêndios, é certo, mas ignorar um aprofundamento do conhecimento da sua situação económica seria o trabalho normal de qualquer jornalista.
Falarem por exemplo com o presidente de junta de freguesia de Avanca poderia ser uma solução excelente para um bom apuramento da verdade… pelos vistos, nada foi feito …
Quando à noite chego a casa e vejo na TV o presidente de junta de Freguesia de Avanca a falar sobre a falsa necessidade de sobrevivência do casal e dos seus antecedentes criminais, senti-me enganado por uma irresponsabilidade jornalística que nem mereceu uma palavra aos seus ouvintes no dia seguinte de emissão na Rádio.
Será que os potenciais empregadores, depois de saberem do cadastro criminal do casal, darão trabalho aos mesmos? Será que foi mesmo uma manobra de angariação de dinheiro sem realmente haver necessidade?
É engraçado que estes humoristas/jornalistas gostam de criticar os políticos e de fazer chacota mas no entanto quando são os protagonistas de um péssimo jornalismo que chega a mexer no bolso dos portugueses, ninguém os crítica, talvez com receio de ser ridicularizado.

Lamentável é também que ninguém os ouve estes senhores sempre bem dispostos, assumir responsabilidades de termos ficado um pouco mais pobres por acreditar neles.

  • Paulo Freitas do Amaral, colunista especializado

Paulo Freitas do Amaral

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