Pedrógão Grande e a resposta de que não era preciso nada!

Pedrógão Grande e a resposta de que não era preciso nada!

Pedrógão Grande e a resposta de que não era preciso nada!

Quem me conhece sabe que sou natural do litoral, do concelho da Figueira da Foz, e faz quase quatro anos que vim viver e trabalhar para o interior. Fiz certamente o inverso da maioria das pessoas por considerar que vale a pena investir no interior e porque valorizo o esforço que aqueles que aqui residem têm feito ao longo dos anos para tentar mostrar o que de bom existe, mesmo que o poder central nem sempre se lembre desta parte do País.

Pelo menos uma vez por mês tenho por hábito ir à terra e num destes dias passei pela faixa colocada no IC8 cuja foto foi partilhada milhares de vezes nas redes sociais e nos meios de comunicação social onde está escrito “OBRIGADO POVO PORTUGUÊS – VAMOS RENASCER – MUNICÍPIO DE PEDRÓGÃO GRANDE” e fiquei a pensar na vergonha de Pedrógão estar nas bocas do mundo pelas piores razões.

Sabemos que os Portugueses são generosos e amigos de ajudar, são solidários, sempre o foram e vão continuar a ser. Somos um povo que já sofreu muito, que veio de Angola “com uma mão à frente e outra atrás”, que valoriza as dificuldades dos outros e que nem sempre somos devidamente reconhecidos por quem de direito.

Sabemos que existe a suspeita de verbas desviadas no caso de Pedrógão Grande. Um assunto que mexe com todos nós mas que deve ser tratado nas devidas instâncias. Um tema que deverá ser explorado até ao último cêntimo porque todos nós temos o direito de saber como foi utilizada a nossa contribuição. Contribuímos porque sabemos que poderia ser qualquer um de nós a passar por aquela situação trágica, como sempre digo “hoje por outros, amanhã por nós”.

Mas há tanto que não sabemos…

No domingo, após o trágico dia, pela manhã e sentindo-me impotente pela situação que estava a ocorrer aqui bem perto (vivo na Sertã), agarrei o telemóvel e liguei para um elemento da Câmara Municipal da Sertã, alguém que faz parte do grupo máximo de hierarquia do Município e que atualmente exerce funções de Vereador. Era o único número mais direto que tinha. Liguei a dar a minha total disponibilidade enquanto Psicóloga para ajudar no que fosse necessário. Foi-me dito que não era preciso nada, no terreno estavam os colegas Psicólogos do INEM, por isso não necessitavam de nada da minha parte.

Desliguei a chamada e fiquei revoltada. No meio de tanta coisa um Psicólogo a mais não poderia ajudar a lidar com uma situação de catástrofe? Parece que aos olhos de algumas entidades não!

Sabemos que a primeira linha de ação pertence aos colegas Psicólogos do INEM, de seguida são chamados os Psicólogos inscritos na Ordem dos Psicólogos Portugueses com formação na área de ação em contexto de catástrofe e só depois solicitam a ajuda de outros colegas.

Ora, eu estou inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses como membro efetivo, trabalho nesta zona do País há três anos, exerço esta profissão há quase 13 anos, muitas das vezes em contato com situações limite, quer em colaboração com Corpos de Bombeiros, quer em colaboração com outras entidades oficiais como PSP, GNR, etc.

A realidade é evidente: os colegas Psicólogos do INEM fazem o seu trabalho mas têm um tempo de duração limitado uma vez que ao fim de dias ou semanas terão de ir para outro teatro de operações. É assim que o sistema funciona e os colegas não têm culpa disso.

Perante a impotência e revolta que senti (não, eu não queria ser mártir, apenas queria ajudar) lancei um comunicado numa rede social a disponibilizar os meus serviços de forma gratuita às vítimas dos incêndios (na altura de Pedrógão e depois em Outubro). Fi-lo por minha conta e risco. E sim, fui mal interpretada por muitas pessoas. Houve quem considerasse que foi um aproveitamento em termos de marketing, houve quem julgasse por achar tudo e mais alguma coisa. Mas voltaria a fazê-lo, porque muitos foram aqueles que me procuraram e que até hoje, passado um ano, continuam a ter acompanhamento psicológico gratuito. Nunca em tempo algum nem para ninguém referi o número de pacientes que se encontram nesta situação e muito menos o número de consultas que tenho efetuado nestes moldes. Os números pertencem apenas a mim, foi uma opção que fiz e que não pretendo divulgar porque, tal como referi, não sou mártir e apenas uso a minha profissão para ajudar. E não pretendo fazer ações de marketing desta forma, seria desumano e se escrevo este texto é pela indignação enquanto pessoa e profissional sobre tudo o que tem envolvido esta tragédia.

Hoje fala-se de milhões de euros, fala-se de culpados, fazem-se julgamentos em praça pública e (finalmente) vêm ao de cima muitas coisas que já sabíamos mas que ninguém ou poucos tinham a coragem de expor.

Eu prefiro falar de centenas de seres humanos que precisam muito da ajuda de todos nós. Quantas pessoas ainda não tiveram qualquer acompanhamento psicológico? As indemnizações são por direito, mas elas não trazem de volta os filhos, pais, irmãos, tios, primos, vizinhos e amigos que faleceram. Elas não trazem as memórias que o fogo apagou sem deixar rasto. Elas não alimentam a alma nem aliviam a dor.

É preciso apurar as responsabilidades nos processos que falharam, sim! Mas é preciso olhar para aquelas pessoas que ainda não têm casa, que ainda não tiveram uma única palavra de um profissional de saúde mental. É necessário continuar a olhar para estas pessoas, não com pena, mas com esperança. Pessoas que a muito custo não baixam os braços e tentam reerguer-se depois da tragédia, pessoas que viram a morte de perto, pessoas que perderam tudo mas que não desistem deste interior que amam, pessoas que pretendem colocar o interior no mapa porque nós existimos.

Nos momentos de aflição a população revolta-se. Vi bombeiros a serem maltratados pela população porque não conseguiam estar em todos os lugares, vi alguns a chorarem por ter água nos carros mas estavam à espera de ordem para combater, acompanho bombeiros e elementos das forças de segurança que viram o que nunca desejamos ver. Nos momentos de injustiça todos temos uma palavra a dizer, mas não pretendo julgar ninguém em praça pública, esse é o trabalho e o dever da justiça. Pretendo apenas dar a conhecer uma situação real que aconteceu no dia a seguir às mortes. Sei que o poder local não estava preparado para algo com estas dimensões. Sei que a resposta que me foi dada possivelmente nem foi convenientemente pensada e ponderada.

Mas pergunto: se houver uma próxima vez vão-me responder novamente que não é preciso nada?

Vera Silva Santos

 

 

 

 

 

 

 

Vera Silva Santos, Psicóloga, www.verasilvasantos.webnode.pt

. Correspondente na Sertã

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