A Memória

A falta de exercício mental por uso excessivo da máquina, terá a curto prazo um efeito que nos pode conduzir à estagnação, ou mesmo ao retrocesso na evolução tecnológica; na base deste fenómeno, que se está a agravar muito rapidamente, está o uso das tecnologias de ponta que estão a compelir os humanos para a perda de memória, que já  se está a refletir negativamente nas relações sociais, e mais concretamente nas famílias e grupos.

Por exemplo; a matemática conhecida no passado como um grande desafio que requeria um grande esforço mental, deixou a tarefa para a “calculadora” que numa fração de um segundo resolve uma equação que no passado, levaria dias ou meses aos mais brilhantes matemáticos.

O entorpecimento cerebral por falta de exercício, tem sérias consequências no comportamento humano e no relacionamento social, onde a aprendizagem escolar depressa é esquecida; sendo a memória visual e recordações de infância muito penalizadas, em que os laços e afetos da família passaram da pedra basilar da sociedade a pouco relevantes.

A memória é uma importante herança genética, mas há indícios de que estamos lentamente a afastar-nos dela. Um professor de matemática com vários anos de ensino, nota que de ano para ano os seus alunos têm cada vez mais dificuldades no enquadramento desta disciplina, que é a rainha de todas as outras.

Os laços familiares são os mais afetados com a perda de memória, que também se reflete nos povos e nas Nações; e alguns de nós um pouco mais atentos, apercebemo-nos desta grave realidade.

A perda de memória, tem atingido muitos dos líderes políticos mundiais que a deveriam ter mais viva; por exemplo os povos europeus, têm andado distraídos com este fenómeno, que está a bloquear a memória de acontecimentos de um passado relativamente recente; e isso foi constatado há pouco tempo, com a grande avalanche de xenofobia e antieuropeísmo, com a falta de solidariedade para com aqueles, que foram marcados pela fatalidade de terem nascido em países onde os direitos humanos e as perspetivas de um futuro digno são praticamente inexistentes.

Uma vergonhosa onda de nacionalismo “xenófobo”, está a acontecer em países que durante anos foram referência para os direitos humanos.

Nações como a Holanda, Áustria, Dinamarca e Alemanha entre outras, esqueceram a lição do Século XX em que milhões de americanos, australianos, canadenses e europeus, deram generosamente as suas vidas na defesa de ideais sublimes como a solidariedade, a igualdade e os direitos humanos; eles colocaram estes valores acima das vaidades pessoais e dos “rancores”, contra os que tiveram a infelicidade de terem nascido com algumas diferenças na mentalidade e na cor.

As memórias do passado, não as podemos ignorar ou esquecer porque são uma referência para o futuro e também para o presente, onde  mais de 90 por cento dos atuais líderes mundiais não nasceu no meio de uma guerra, mas com toda a certeza que sabem a história dos seus países.

Um líder de um país europeu da extrema direita por exemplo, também esqueceu Anne Frank porque não foi sua contemporânea; lembro-lhe que ela foi um símbolo da resistência no seu país.

A direita está em força no parlamento europeu; só podem estar a ser vítimas de uma grande falta de memória, porque esqueceram a grande lição que o passado recente lhes deu.

A história repete-se com uma subtileza que nem nos apercebemos; e quando damos pelos erros que cometemos, já será tarde de mais.

OBS: Às crianças pobres da Europa; não esquecendo também aquelas que ao longo dos tempos, a intolerância e o racismo xenófobo nunca as deixaram crescer.

J. Vitorino

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