Memórias de Portugal: 1º de Dezembro de 1640

 

A batalha de Aljubarrota a 14 de agosto de 1385, e a restauração da soberania de Portugal a 1 de dezembro de 1640, são duas datas marcantes da nossa história; porque completaram o ciclo, que nos afastou definitivamente de Espanha.

 

Vamos recuar no tempo 385 anos. D. João VIII Duque de Bragança, era o nome que reunia maior consenso para ser rei de Portugal, se tudo corresse de acordo com o plano dos conjurados, que tinham a seu favor a situação de sublevação na Catalunha pelo que, aquela era uma oportunidade a não perder.

 

Tudo terá sido organizado em completo secretismo, e teriam avançado antes se alguns não tivessem recuado com receio de perderem a vida; e também existiram delatores, já depois de terem aderido ao movimento; entretanto já teria chegado ao conhecimento dos espanhóis alguns nomes dos 40 nobres envolvidos na conjura, pelo que já não havia nada a perder.

 

Receosos pelos acontecimentos nas últimas horas, alguns dos conjurados pensavam que a insurreição seria um suicídio; no entanto e para surpresa, todo o plano foi executado com um enorme sucesso.

D. João IV Duque de Bragança, era à época dos acontecimentos o homem mais rico da Península Ibérica.

 

Os revoltosos chegaram a aclamá-lo como rei D. João IV, que consciente da sua legitimidade dinástica e da grandeza da Casa de Bragança, mas D. João agiu sempre com prudência; evitando precipitar os acontecimentos, e procurando uma oportunidade adequada às circunstâncias para intervir.

 

Esta atitude seria inicialmente mal interpretada,  e sido acusado de não querer assumir responsabilidades em ações de resultados duvidosos; na verdade, ele não podia colocar em risco os privilégios e a sua enorme fortuna; e também sabia que em caso de fracasso, todas as portas seriam fechadas a novas tentativas.

 

O desânimo provocado por esta suposta posição do Duque de Bragança, levou alguns fidalgos a contactar o seu irmão D. Duarte que se encontrava na Alemanha, para lhe propor a liderança do movimento insurrecional.

 

Para o Conde-Duque de Olivares um homem reconhecidamente inteligente, a situação não passava despercebida; e a importância e o perigo que constituía a crescente onda de interesse e simpatia pela figura de D. João, era uma ameaça que não podia ser descuidada; até porque Aljubarrota, ainda estava na memória passados 255 anos.

 

Entretanto os acontecimentos precipitam-se, porque o Conde-Duque de Olivares já estava informado de que D. João seria o escolhido para futuro Rei de Portugal; por isso seria preciso afastá-lo quanto antes de Portugal, oferecendo-lhe o cargo de Vice-Rei de Milão o que foi recusado pelo Duque, alegando o seu desconhecimento das questões internas da Lombardia.

 

O Conde-Duque de Olivares insiste em o afastar, e nomeia-o governador das armas do Reino de Espanha, com o pretexto de que a armada francesa ameaçava as nossas costas, sendo necessário preparar urgentemente a defesa.

 

Ao mesmo tempo, vai criando condições para apanhar o VIII Duque de Bragança em falta, e recomenda-lhe que passe revista a todos os quarteis e fortalezas do Reino, ordenando secretamente aos respetivos comandantes, que o prendam e que seja enviado para Madrid sob escolta.

 

Avisado a tempo D. João faz-se acompanhar por uma comitiva de fidalgos seus amigos, que para além de não ter sido molestado, até viu aumentar o seu prestígio.

 

Por ironia, é o agravamento na Catalunha que vai desencadear os acontecimentos.

 

Na segunda metade do ano de 1640 a situação dos catalães agrava-se, e os abusos das guarnições castelhanas que ocupavam o nosso país era preocupante, pelo que foi várias vezes denunciada; não tendo obtido qualquer resposta do Conde-Duque Olivares, os revoltosos matam o vice-Rei, e pedem ajuda a França.

 

A Espanha tem agora várias frentes de instabilidade, o que favorece os conjurados portugueses; já não é só em Barcelona onde existem tumultos, mas também em Gerona, Balaguer, Lérida e Olot, e simultaneamente as forças francesas sitiaram Tarragona.

 

O Conde-Duque de Olivares, pensa tirar partido da grave crise em que o Reino de Espanha está mergulhado, apostando na mobilização de toda a nobreza de Portugal, incluindo o Duque de Bragança para integrar o exército que iria desencadear ações de retaliação contra os catalães, e manda paralelamente proceder ao recrutamento de soldados em todo o país.

 

Este plano, e o consequente encaminhamento dos portugueses para combater a insurreição na Catalunha, fizeram ultrapassar as hesitações ainda existentes, e o movimento restaurador toma forma irreversível.

 

Não obstante as condições favoráveis ao desenrolar dos acontecimentos, não terá sido fácil convencer D. João VIII Duque de Bragança a aceitar a coroa de Portugal.

 

Um grupo de fidalgos e nobres onde se incluía Pedro de Mendonça Alcaide-Mor de Mourão, amigo e companheiro de caça do Duque e visita frequente de Vila Viçosa, conjuntamente com Jorge de Melo, D. Francisco de Melo III Marquês de Ferreira, e D. Afonso de Portugal Conde de Vimioso todos parentes do Duque de Bragança, conseguiram finalmente convencer D. João a aceitar a Coroa.

 

Para tal, contaram com a ajuda da Duquesa de Bragança D. Luiza de Gusmão que mesmo sabendo que podia correr perigo de vida, disse ao Duque que tinha o seu total apoio, e que lhe terá dito a famosa frase para o animar; “vale mais ser rainha por um dia, do que Duquesa toda a vida”.

 

Para além dos já acima referidos, também estiveram presentes D. Miguel de Almeida, António de Saldanha, e João Pinto Ribeiro que era o elo de contato entre o grupo e a Casa de Bragança.

 

Os conjurados manifestaram a sua desilusão pelas hesitações de D. João acusando-o de indeciso; mas João Pinto Ribeiro procurou justificar a atitude do Duque, chamando a atenção para as consequências de ações precipitadas; concluindo que, se a aclamação do Duque como rei de Portugal era a solução, então que o aclamassem mesmo sem o seu consentimento.

 

Os conjurados inicialmente concordaram, mas todavia decidiram avisar D. João acerca dos seus propósitos, e insistir uma vez mais em que ele aceitasse a Coroa.

 

Assim, incumbiram João Pinto Ribeiro para ser o porta-voz do grupo, mas este sugeriu que fosse Pedro de Mendoça que aceitou de bom grado a missão, partindo imediatamente com destino a Évora, onde iria dar a conhecer a decisão dos conjurados ao Marquês de Ferreira e ao Conde de Vimioso, para que de imediato informassem D. João Duque de Bragança.

 

Dirigiram-se de imediato à Tapada que era uma das maiores da Península Ibérica, onde D. João praticava frequentemente a caça ao gamo e ao javali, que era o seu passatempo favorito; aproveitando uma altura em que este se encontrava isolado dos seus monteiros, Pedro de Mendonça abordou-o de forma firme e disse-lhe; venho pedir-lhe em nome de quase toda a nobreza do Reino, que aceite a Coroa; argumentando o descontentamento do povo, e o grande número de aderentes ao movimento restaurador, dispostos a sacrificar a vida pela independência de Portugal.

 

O fator surpresa, a guerra entre a Espanha e a França, e a insurreição na Catalunha foram determinantes, para o sucesso da Revolução de 1640 tivesse sido coroada de êxito.

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OBS: À memória de D. João IV e dos conjurados, cuja coragem e patriotismo devemos este belo país que é Portugal.

Jornal Diário Digital Vila de Rei

J. Vitorino – Jornalista Diretor

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