O caminho a trilhar, por conseguinte, não deverá passar pela criação imediata de um Exército Europeu, mas por algo mais pragmático e indispensável: 27 exércitos nacionais, interoperáveis, bem equipados e integrados, aptos a atuar em conjunto com forças cometidas à NATO e, se necessário, também em missões autónomas da UE.
Donald Trump afirma sem qualquer tipo de pudor: “Precisamos mesmo da Gronelândia…”. E acrescenta, após o ataque a Caracas, como que surfando uma gigantesca onda de sucesso: “Precisamos da Gronelândia para a nossa própria segurança.” Não se ficando por aqui, resolve lançar mónitas ameaçadoras a outros países designadamente ao México, a Cuba e à Colômbia. Estas narrativas desabridas do presidente norte-americano devem ser levadas mesmo a sério? A resposta é óbvia, sem dúvida alguma que sim. Não nos iludamos. Trump não é um defensor da atual ordem internacional liberal, democrática e baseada em regras.
Se dúvidas subsistissem, estas acabaram justamente de se dissipar. É sim, mais um acérrimo paladino de um mundo protagonizado por zonas de influência. Digo mais um, porque em boa verdade não é o único, muito longe disso. Antes dele, já Putin mostrou exatamente isso mesmo, pois persiste em restaurar velhas zonas de influência, de momento, na Ucrânia.

Gronelândia – Área 2.166.000 quilómetros quadrados – população em (2024) 56.836.
Trump quer a Gronelândia porquê? A resposta neste ressuscitado quadro das relações entre Estados, aonde o poder desempenha o papel gínglimo, onde é realmente Rei, torna-se óbvia: simplesmente porque pode. Porque tem poder para isso e porquanto daí colhe claros dividendos económicos e nítidas vantagens securitárias. É claro que, na estrita defesa da respetiva soberania, estas ameaças já receberam resposta oficial por parte do executivo dinamarquês. A sua primeira-ministra, Mette Fredriksen, disse: “… ser completamente inútil falar sobre a possibilidade dos EUA tomarem a Gronelândia. Estes não têm o direito de anexar nenhum dos três países que compõem o Reino da Dinamarca. A Gronelândia e o seu povo deixaram claro que não estão à venda e apelaram a Washington D. C. para que pare de ameaçar um aliado historicamente próximo…”.
Vista como um todo e analisada com a devida parcimónia a política externa de Donald Trump assemelha-se, amiúde, a um verdadeiro reality show. O mediatismo tem estado quase sempre no centro da sua ação. Neste seu consulado: reuniões deploráveis de raro dramatismo como a que sucedeu com Zelensky, em fevereiro de 2025, deixando o mundo estupefacto, algo nunca antes televisionado; anúncios inopinados e muitas vezes imprevisíveis postados em redes sociais como a Truth Social; cortes abruptos com velhos aliados e encenações meticulosamente coreografadas como o encontro com Putin no Alasca, têm vindo a constituir uma constante desta política externa errática e mesmo bizarra da Casa Branca. Trump “fulanizou” as relações internacionais. Apostou em contactos diretos entre líderes, como se a política internacional e o relacionamento entre os seus atores se tratassem de um constante jogo informal entre great leaders – homens fortes e de personalidades fortes.
Durante cerca de oito décadas, a Europa teve lugar privilegiado à mesa do poder, devidamente coordenada com quem objetivamente decidia as regras do jogo e traçava os desígnios da ordem internacional. Hoje somos instados a cuidar dos nossos problemas, a pagar a conta e a contentarmo-nos com os restos, caso sobrem. Desta mediática saga diária, a mensagem a reter é apenas uma: a convicção de que uma parceria transatlântica, antes à prova de bala, foi severamente afetada pela força das ondas vindas do outro lado do Atlântico. Impulsionadas pelo “vento que tudo levou”, o que subsistiu foi a constatação da crua realidade da escalada da força bruta! Pois é, quem não tem poder para decidir, nada mais lhe resta senão obedecer e quem se satisfaz com tal condição, acaba inexoravelmente por se tornar insignificante. O mundo de “atores confortavelmente dependentes” parece ter chegado mesmo ao seu termo.
Quanto a Trump, dispensa realizadores e mesmo atores secundários para produzir os seus próprios dramas: dirige em direto e a cores, metamorfoseia a diplomacia num verdadeiro espetáculo e faz da dubiez uma ferramenta de poder. A Europa terá de escolher. Quer continuar como mero figurante nessa trama hollywoodesca ou se, de uma vez por todas, se quer mostrar capaz de escrever o seu próprio roteiro. E é justamente a este propósito, que considero sábias as palavras do primeiro ministro polaco, Donald Tusk, quando afirma de forma realista que “ninguém vai levar a sério uma Europa fraca e dividida: nem inimigo, nem aliado”. É óbvio que “devemos finalmente acreditar na nossa força, continuar a armar-nos, … manter-nos unidos como nunca antes. Um por todos, e todos por um. Caso contrário, estaremos acabados”.
Alguns líderes europeus renovaram os apelos à criação de um exército próprio, uma ideia que, há muito tempo, tem vindo a deparar-se com grandes dificuldades em avançar. Mas será este o momento certo para a impulsionar? O Presidente ucraniano, Zelensky, e o Primeiro-Ministro espanhol, Sánchez, estão entre as vozes mais recentes a apoiar a criação de um Exército Europeu como forma de garantir uma paz credível e duradoura na Europa. “É tempo de criar um Exército Europeu, forças armadas da UE com tropas dos 27 Estados-membros, a operar sob uma única bandeira e com os mesmos objetivos”, afirmou Sanchéz.
“Esta é a única forma de nos tornarmos uma verdadeira união.” Claro que no papel, o conceito é muito atrativo. Poderia reforçar a interoperabilidade dos sistemas militares, armamento e forças, bem como criar uma estrutura de comando conjunta que melhorasse a coordenação entre todas as tropas participantes.
Atualmente, a Europa – incluindo o Reino Unido – conta com cerca de 1,47 milhões de militares no ativo. A curto prazo, o “desafio europeu não é substituir os EUA militarmente, homem por homem, mas, a longo prazo, devemos considerar seriamente a construção de uma força europeia comum que consiga combater e agir como uma só para defender a Europa, substituindo-se aos EUA”, escreveu Max Bergmann, diretor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), numa recente análise. Apesar disso e pese embora os apelos vindos de várias capitais europeias, os responsáveis da UE continuam algo relutantes em reabrir este debate. Na atual conceção política da União, “a defesa é e continuará a ser uma atribuição nacional”, advogam alguns líderes sendo que “a questão não é ter um ‘exército da UE’, mas sim 27 exércitos robustos e interoperáveis por forma a conseguirem trabalhar eficazmente e em conjunto”.
No início deste ano, Kaja Kallas observou que a fragmentação na Europa está a inflacionar custos, a dificultar a interoperabilidade e a causar problemas logísticos. Realmente “precisamos de integração na defesa e de interoperabilidade no terreno. Não precisamos de um exército europeu”, afirmou a ex-primeira-ministra da Estónia. Atualmente, 23 dos 27 Estados-membros da UE pertencem à NATO. No entanto, à medida que os EUA deslocam o seu foco estratégico para o designado “Hemisfério Ocidental” – as américas – e para a região do Indo-Pacífico, têm instado os seus aliados europeus a assumirem uma maior responsabilidade na sua própria defesa.
De acordo com estimativas preliminares do think tank económico Brügel, sediado em Bruxelas, para que a Europa possa assumir-se como um elemento de dissuasão credível sem o apoio dos EUA, um exército europeu necessitaria de pelo menos 1.400 carros de combate, 2.000 veículos de combate de infantaria e 700 peças de artilharia. Seriam também indispensáveis um milhão de projéteis de artilharia de 155 mm para os primeiros 3 meses de combates de alta intensidade. Em termos de efetivos, a Europa precisaria de pelo menos mais 300.000 militares adicionais. A produção de drones teria de aumentar drasticamente, de modo a igualar os atuais níveis russos. As despesas com defesa igualmente de aumentar em cerca de 250 mil milhões de euros por ano.
Criar um Exército Europeu implicaria decisões políticas profundas que a UE, no seu estado atual, não está pronta para tomar. Por outras palavras a EU teria obrigatoriamente de se assumir politicamente como um Estado Federal. Pois, apenas num tal contexto estrutural seria possível responder cabalmente a questões pertinentes como as que seguidamente apresento. Quem comandaria essas forças? Quem decidiria sobre o seu emprego? Em que circunstâncias um soldado português, alemão ou polaco seria enviado para combater e sob que legitimidade política? Estas questões envolvem restrições diretas às soberanias nacionais, um tema onde não existe suficiente consenso entre os 27 Estados-membros.
O caminho a trilhar, por conseguinte, não deverá passar pela criação imediata de um Exército Europeu, mas por algo mais pragmático e indispensável: 27 exércitos nacionais, interoperáveis, bem equipados e integrados, aptos a atuar em conjunto com forças cometidas à NATO e, se necessário, também em missões autónomas da UE. Todavia, padronizar sistemas de armas, reduzir drasticamente a fragmentação industrial e alargar a sua produção, criar Comandos Conjuntos e Combinados eficazes, investir seriamente na prontidão operacional e assumir, sem ambiguidades, que a defesa da Europa tem um custo político, financeiro e social, obriga a alinhamentos políticos que, neste momento, nem existem na EU quanto ao apoio à Ucrânia. Implica, de igual forma, que os Estados-membros cumpram os compromissos de um crescente investimento em defesa, algo que muitos ainda não fazem.
No médio e longo prazo, se a UE evoluir para uma verdadeira união política, dotada de uma voz e uma ação externa comuns e mecanismos claros de decisão em matéria de defesa, então a discussão sobre um Exército Europeu fará todo o sentido. Obviamente não como ponto de partida, mas como ponto de chegada. Um Exército Europeu ou uma Europa armada, integrada, interoperável e politicamente responsável, capaz de se defender a si própria é, sem dúvida, uma discussão a ter!
Neste momento histórico, carregado de incertezas, a prioridade deve ser credibilizar a dissuasão face à Rússia, garantir o apoio contínuo à Ucrânia, e assegurar que a Europa não se transforma num vazio estratégico, num mundo cada vez mais dominado pela lógica da força.
A ilusão de um Exército Europeu pode ser politicamente sedutora, mas a realidade exige menos slogans e mais capacidade militar real. A verdade é que na ambiguidade do presente, se joga o futuro e ninguém levará a sério uma Europa frágil e dividida; nem os aliados, e muito menos os inimigos.

Isidro Morais Pereira – Major General
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Jornal Diário Digital Vila de Rei