A batalha de Aljubarrota 640 anos depois
As grandes batalhas medievais, ainda hoje movem paixões e admiração; e também deslumbramento pela entrega a causas que muitas vezes ultrapassaram o concebível e racional, porque leva à entrega das próprias vidas; em especial quando existia uma desproporcionalidade de forças em presença, como aconteceu em Aljubarrota de 6 para 1 a favor de Castela.
Os da linha da frente, sabiam que na primeira carga inimiga existia uma enorme probabilidade de serem mortos; mas algo muito mais forte os transcendia, como sentido do dever e o patriotismo, que foram sempre uma incontestável motivação para a entrega total onde não foram raras as vezes, que a esperança perdida deu lugar a um sentimento mais profundo a Fé.
Existem dois casos de Batalhas medievais que tiveram muito em comum, o que fazem refletir as circunstâncias enquadradas no tempo; até porque, ambas se revestem de contornos da mesma similaridade, e que distam entre si 30 anos.
Acredita-se que alguns dos 300 arqueiros ingleses que estiveram a combater do lado português, teriam combatido nestas duas famosas batalhas; que levariam em caso de derrota os dois países á perda da independência, a de Aljubarrota e Azincourt 30 anos depois.
Ambas têm uma grande semelhança, cujos chefes militares eram Homens de uma enorme Fé e extraordinários oradores, que levaram os seus soldados a uma Vitoria estrondosa, contra um inimigo numericamente superior (um para seis) em ambos os casos.
Mas o mais “espantoso” nos dois confrontos, foram as baixas que nos dois casos foram muito maiores do lado de quem perdeu; em Aljubarrota 4 castelhanos perderam a vida por cada português caído em combate; sendo as perdas francesas em Azencourt 12 vezes superiores às de Henrique V de Inglaterra, que antes do combate recebeu várias vezes o Arauto francês a insta-lo à retirada o que não aceitou; recordo que Azincourt, o local do confronto é em território francês.
Henrique V dirige um dramático apelo aos seus homens antes de iniciar a Batalha; e incute-lhes a Fé em Deus e fala-lhes de São Crispim, porque a Batalha foi no dia comemorativo deste popular Santo. Henrique levanta a moral dos seus homens quando convicto e determinado lhes diz; irão lamentar pelo resto das suas vidas todos aqueles, que não têm a honra e o privilégio de hoje poderem estar aqui.
A vitória de Azencourt como a de Aljubarrota, foram esmagadoras e determinantes na independência de Portugal e Inglaterra, que há 32 anos tinham selado a mais velha Aliança do Mundo, e que ainda hoje perdura; e se Henrique V tivesse participado na Batalha de Aljubarrota 30 anos antes, teria ouvido D. Nuno Álvares Pereira fazer o mesmo discurso aos seus homens, antes do confronto que levou Castela ao reconhecimento da nossa independência.
O Santo Condestável, para além da coragem era um Homem de Fé; pouco lhe importava que do outro lado estivessem os melhores Cavaleiros de Espanha e França; sabia que eles vieram para se vingar da derrota de há um ano em Atoleiros; em que D. Nuno Álvares teve uma vitória estrondosa contra Castela com menos de 1/3 dos efetivos; alguns deles, que ia angariando nos campos por onde passava a caminho de Fronteira “Atoleiros” o local da Batalha, onde infligiu uma pesada derrota a Castela.
Mas um acontecimento inédito em Atoleiros, esteve na origem da Vitória em Aljubarrota um ano depois; Castela deixou para trás 1/5 dos seus homens, enquanto D. Nuno Álvares não perde um único combatente, nem feridos graves segundo um cronista da época.
D. Nuno Álvares Pereira pensou, que teve em Atoleiros uma ajuda Divina; que o encoraja a enfrentar sem receio 36.000 castelhanos que vieram para resolver de vez as pretensões de Castela à Coroa portuguesa; do lado português estavam 6.000 homens, muitos deles tinham combatido em Atoleiros um ano antes, a que se juntaram 300 arqueiros ingleses ao abrigo da nova Aliança.
Bem preparados, estes ingleses que não perderam um único homem na Batalha; muitos deles, colocavam uma flexa no peito de um Cavaleiro em correria a 50 metros de distância.
Foi uma batalha terrível que durou várias horas, onde a cavalaria do lado castelhano quase toda constituída por Nobres Franceses, foram os mais fustigados; as tropas apeadas entraram em pânico porque se lembraram de Atoleiros; e colocaram-se em debandada sendo perseguidos e mortos.
O Campo de São Jorge em Aljubarrota ficou pejado de cadáveres, os dados da época apontam para 1000 portugueses e 6000 castelhanos, onde mais de 1000 foram perseguidos e mortos; era um ódio antigo, que não se compreende porque havia milhares de portugueses a combater do lado de Castela; porque D. Beatriz era quem reclamava o Trono de Portugal e era portuguesa; no rescaldo do confronto, centenas de feridos castelhanos foram executados.
D. Nuno Alvares Pereira, foi o mais Ilustre de sempre de todos os portugueses; tinha 23 anos quando assumiu o comando do exército de Portugal, e ganhou a Batalha de Aljubarrota aos 25; foi também o Homem mais rico e com mais títulos da nossa História; tudo deixou para se dedicar àquilo em que sempre acreditou a Causa de Deus, passando o resto da sua vida em recolhimento; refletir o nosso passado e a vida destes Heróis, é abrir o caminho para o futuro.
A técnica do quadrado, foi utilizada por Alexandre Magno em Grandes Batalhas, para evitar deserções; obrigando os soldados a combaterem até à morte, porque estavam cercados pelo inimigo; o que implicava uma grande coesão do exército.
D. Nuno Alvares Pereira em adolescente, leu num livro esta novidade de combater e aplicou-a pela primeira vez na Batalha dos Atoleiros, onde inexplicavelmente não perdeu um único Homem.
OBS: À memória de todos aqueles que deram generosamente as suas vidas naquele dia longínquo de 1385; a todos eles, devemos a nossa independência.


J. Vitorino – Jornalista Diretor – Cavaleiro da Ordem Dinástica São Nuno de Santa Maria