Refletir Portugal, por J. Vitorino

 

A evasão de milhares de portugueses que nos últimos anos se decidiram pelo abandono do seu país, reveste-se de um dramatismo sem fim à vista; desde o “salto” nas décadas de 60 e 70, que Portugal não enfrentava um problema social com esta gravidade.

 

A emigração na última década, tem uma tipologia diferente daquela a que acima me refiro; efetivamente aqueles que deixam hoje o nosso país, com todo o respeito pelos que emigraram no passado como foi o meu caso, são a fina flor da nossa sociedade; eles levam nas suas bagagens licenciaturas, MBA’S e Doutoramentos que tiraram nas nossas Universidades, reconhecidamente das melhores e que são pagas pelos contribuintes portugueses.

 

É um ultrajante e inaceitável paradigma, serem os pobres a assumirem os custos na educação dos seus filhos, e os verem partir para irem dar o seu melhor aos países, que insistem em impor políticas de austeridade, para assim manterem pobres os parceiros do Sul para usufruírem do nosso trabalho barato, para fortalecer as suas economias enquanto as nossas enfraquecem; sendo que algumas, já entraram num declínio irreversível.

 

Portugal entrou numa fase de desertificação acelerada, que é uma consequência direta desta vaga emigratória que há 12 anos leva ao empobrecimento do país; que tem um efeito direto na queda populacional, em que as pessoas da terceira idade já são mais que os jovens.

 

Somos o único país no Sul da Europa marcado por este estigma, em que a demografia em Portugal entrou numa queda livre; em que os efeitos a curto prazo na sustentabilidade do sistema, serão simplesmente terríveis, onde haverá apenas um único trabalhador por cada reformado; com milhares de aldeias a ficar quase desertas, e cada vez mais pobres e envelhecidas; é que a emigração não irá abrandar nos próximos 20 anos, porque a débil resposta que a nossa economia tem para dar, nem sequer vai chegar para os compromissos da dívida e juros, assumidos por governos anteriores.

 

Este é o grande travão ao aumento da população portuguesa, e ao nosso desenvolvimento; com a emigração dos jovens a constituir um flagelo, como é também a falta de condições económicas a quem decidir ficar.

 

Desde 2012, que emigraram em média 120 mil portugueses por ano; se acrescentarmos os que não entraram nas estatísticas, foram muitos mais os que partiram e que tão depressa não podem, não querem, ou não têm condições para regressar; esta emigração de elite (com idade média) de 26 anos, vai condenar irremediavelmente a recuperação do país; atacando à partida e na sua base, o que seria a ténue esperança de se vislumbrar, a cansada luz ao fundo do túnel.

 

Os portugueses têm vindo há várias décadas a entregar o destino de Portugal a “fazedores de promessas”, com o benevolente consentimento de todos nós, que estamos comodamente a aceitar como inevitável, o “fado” quem tão bem simboliza a pobreza; nos debates para a eleição do próximo presidente da República, pouco se falou dos que vivem muito abaixo dos níveis dos nossos parceiros europeus.

 

A ingenuidade de um povo com 883 anos de história tem que acabar imediatamente; ou corremos o risco de o único legado que vamos deixar aos nossos descendentes, ser uma dívida colossal, subdesenvolvimento e atrasos a todos os níveis, que os vão colocar na subserviência dos países ricos durante várias gerações.

 

É neste contexto que todas as eleições são importantes incluindo as presidenciais, que terão lugar a 18 de janeiro de 2026; por isso votem no regresso dos nossos emigrantes, e no futuro das nossas crianças e jovens; é que, eles não esperam menos de nós.

J. Vitorino – Jornalista Diretor

Ex-emigrante no Reino Unido

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