Anatomia de um sofrimento oculto, por António Justo

 

Um relógio humano marca a cada onze segundos, uma mutilação genital feminina no mundo; este não é um dado estatístico distante, mas sim o ritmo de um sofrimento profundo, que tece silêncios em pleno século XXI.

 

Quanta mulher destruída e quantos traumas como marcas da vida?, imagine-se a barbaridade que os outros animais na qualidade de irracionais  não fazem?, enquanto Estados se concentram em indicadores económicos e conflitos geopolíticos, uma violação íntima e brutal contra milhões de mulheres e meninas persiste, muitas vezes à sombra de tradições ou da indiferença.

 

Quando chegará o dia em que o Homem e a política se concentrem em curar as feridas humanas?

 

Em sociedades de matriz predominantemente masculina, os problemas existenciais das mulheres são frequentemente relegados para as franjas da discussão pública. A mutilação genital feminina (MGF) é talvez o exemplo mais cristalino desta cegueira seletiva. É imperativo que este tema saia da zona do tabu e entre na esfera da ação coletiva e da consciência emocional. Tabus silenciados endurecem as vidas.

 

As meninas, muitas vezes antes dos cinco anos, têm os seus órgãos genitais externos amputados sem anestesia, em condições barbáries e precárias; a escala da violência varia do corte do clítoris à extração total dos órgãos, e à subsequente costura da abertura vaginal (infibulação), isto implica um procedimento com consequências devastadoras para toda a vida…

 

Este crime não conhece fronteiras; e trata-se de um drama transnacional de famílias que viajam de férias para a Somália, Eritreia ou Djibuti… e regressam com as suas filhas mutiladas; em 2022, estimava-se que 15.000 meninas na Alemanha estavam sob ameaça iminente de sofrer esta violência…

 

Um pouco de humanismo exige que ouçamos os detalhes que os números silenciam, como testemunhou Ibrahim Ishaq Hussein em Kassel; em família, os rapazes crescem a normalizar o sofrimento das mulheres, pois acham normal que mães, irmãs e avós, demorem tempos intermináveis na casa de banho, e vivam com dores constantes.

 

Entre a Tradição e a Lei, o Caminho para a Proteção

 

Contudo, o respeito cultural não pode ser uma capa para a barbárie; se uma menina de cinco anos com mutilação genital chegar a um hospital, o silêncio dos profissionais não pode ser uma opção; aqui os professores também deveriam estar atentos, atendendo a que há cada vez mais pessoas que vêm de culturas em que essas práticas são comuns.

 

Felizmente, há luz na escuridão; em Kassel, centros como a Mädchenhaus e o departamento de saúde da cidade, trabalham há anos contra este ritual, oferecendo proteção e aconselhamento especializado; e a lei alemã deu um passo crucial: desde 2013, o “Código Penal” pune a mutilação genital feminina com, no mínimo um ano de prisão, classificando-a juridicamee como agressão física grave.

 

A pergunta que se impõe, é se as autoridades portuguesas e europeias em geral, estarão preparadas para lidar com esta questão?, é que fazer vista grossa é cumplicidade; e fechar os olhos na Europa, é fomentar a barbárie dentro das nossas fronteiras, sob o falso pretexto do relativismo cultural.

 

Proteger os mais fracos sobretudo as crianças, é um imperativo civilizacional universal que exige legislação clara e aplicada; formação especializada para profissionais, e apoio e proteção às meninas em risco, e às suas famílias e campanhas de sensibilização dentro das comunidades; sendo urgente que este tema saia da sombra, e entre na luz da ação política, do debate público e da proteção humana.

António da Cunha Duarte Justo

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