Colangite Biliar Primária, por Dr. João Madaleno

A importância do diagnóstico precoce e do tratamento atempado

 

Assinalado a 13 de setembro, o Dia Internacional da Consciencialização para a Colangite Biliar Primária (CBP) constitui uma oportunidade para sensibilizar a população e os profissionais de saúde para uma doença hepática crónica, rara e ainda frequentemente subdiagnosticada. Apesar dos avanços no conhecimento e no tratamento da doença, muitas pessoas continuam a enfrentar atrasos no diagnóstico, o que pode ter um impacto significativo tanto na qualidade de vida como na evolução da doença.

 

A colangite biliar primária é uma doença autoimune que afeta sobretudo mulheres de meia-idade e que se caracteriza pela destruição progressiva dos pequenos canais biliares do fígado, responsáveis pelo transporte da bílis. À medida que estes canais são danificados, a bílis deixa de ser adequadamente eliminada e acumula-se no fígado, desencadeando inflamação e lesão hepática. Sem um diagnóstico e tratamento adequados, a doença pode evoluir para fibrose e, em fases mais avançadas, cirrose e insuficiência hepática.

 

Um dos principais desafios associados à CBP reside na natureza inespecífica dos seus sintomas iniciais. Fadiga persistente, comichão intensa, secura dos olhos e/ou boca, bem como alterações das análises sanguíneas, podem surgir muito antes de ser estabelecido um diagnóstico definitivo. Em alguns casos, a doença é mesmo identificada de forma incidental, na sequência de exames de rotina que revelam alterações nos valores hepáticos.

 

Neste contexto, a deteção precoce assume um papel fundamental. O reconhecimento atempado dos sinais de alerta e a realização dos exames adequados permitem identificar a doença numa fase inicial e iniciar o tratamento o mais cedo possível, contribuindo para reduzir o risco de progressão e de complicações. O diagnóstico baseia-se na conjugação de diferentes elementos, nomeadamente análises sanguíneas, incluindo a pesquisa de anticorpos específicos, e exames complementares destinados a avaliar a função e a estrutura do fígado.

 

Atualmente, existem opções terapêuticas capazes de retardar a progressão da doença, melhorar os parâmetros laboratoriais e contribuir para uma maior esperança e qualidade de vida. No entanto, o sucesso do tratamento depende também de um acompanhamento médico regular, que permita monitorizar a evolução da doença e ajustar a estratégia terapêutica sempre que necessário.

 

Para além do tratamento farmacológico, a gestão dos sintomas e a adoção de hábitos de vida saudáveis desempenham igualmente um papel importante. O apoio psicológico, a prática de atividade física adequada e a educação do doente sobre a sua condição podem favorecer uma melhor adaptação ao diagnóstico e contribuir para uma maior adesão ao tratamento e ao acompanhamento médico.

 

O Dia Internacional da Consciencialização para a Colangite Biliar Primária representa, assim, uma oportunidade para reforçar a importância da informação, da sensibilização e, sobretudo, do diagnóstico precoce. Quanto mais cedo a doença for identificada e tratada, maiores serão as possibilidades de preservar a função hepática, prevenir complicações e proporcionar aos doentes uma melhor qualidade de vida.

Dr. João Madaleno, Assistente Hospitalar Graduado de Medicina Interna, Serviço de Medicina Interna e Unidade de Transplantação Hepática de Adultos da Unidade Local de Saúde de Coimbra, membro da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF)

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Jornal Digital Vila de Rei – 03/09/2026

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