O AVC acontece no cérebro, por Dr. Francisco Morgado

 

A causa pode estar no coração: Uma alteração silenciosa do ritmo cardíaco pode estar por detrás de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Em Portugal, cerca de três pessoas sofrem um AVC por hora e uma não sobrevive, segundo estimativas divulgadas pela Sociedade Portuguesa do AVC, que identifica esta doença como a primeira causa de morte e incapacidade no país.

 

Neste Dia Mundial do AVC, a 29 de outubro, importa dar a conhecer uma ligação que pode passar despercebida: o AVC afeta o cérebro (resultante de uma súbita falta de irrigação deste órgão), mas a sua origem pode estar no coração. Quando, após um AVC, a causa continua por esclarecer, a investigação poderá ter de prosseguir depois da alta, para orientar a prevenção de um novo evento.

 

A fibrilhação auricular é uma alteração do ritmo cardíaco que faz o coração bater de forma irregular e pode favorecer a formação de coágulos. Se chegarem ao cérebro e bloquearem a circulação, podem provocar um AVC. Esta arritmia pode aumentar até cinco vezes o risco de AVC e surgir de forma intermitente, sem causar palpitações ou mal-estar. Por isso, um exame de curta duração pode não ser suficiente para a detetar.

 

É por isso que acompanhar o ritmo do coração durante mais tempo pode fazer a diferença. Em doentes selecionados após um AVC de causa desconhecida, a equipa médica poderá recomendar um pequeno monitor cardíaco implantável, colocado sob a pele. Este dispositivo permite acompanhar o ritmo durante mais de 4 anos e detetar alterações que poderiam passar despercebidas num exame breve, mesmo sem sintomas.

 

Encontrar esta alteração pode mudar o tratamento. Quando se confirma fibrilhação auricular, a equipa médica pode avaliar a indicação para medicamentos anticoagulantes, que reduzem a formação de coágulos e previnem o AVC.

 

Dispomos ainda de formas de tratamento da fibrilhação auricular, que evoluíram nos últimos anos, que podem permitir a erradicação da doença, e anular o risco de AVC associado à arritmia.

 

Para além do controle da pressão arterial, está recomendado fazer um controle paralelo da frequência cardíaca (“pulsações”). Um súbito aumento das pulsações em repouso, relativamente ao que é o normal ou basal para essa pessoa, é uma indicação para procurar rapidamente um médico.

 

Reconhecer os sinais e agir rapidamente pode salvar vidas e reduzir as sequelas. Desvio dos lábios (“boca ao lado”), com dificuldade em falar ou articular palavras, são sinais de alerta: basta um deles para ligar imediatamente 112.

 

Perante um AVC, cada minuto conta para proteger o cérebro. Mas a prevenção de um novo episódio começa por compreender o que o causou. Por isso, olhar para o coração pode ser essencial para proteger o futuro. Uma alteração silenciosa do ritmo cardíaco pode estar por detrás de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

 Dr. Francisco Morgado – Coordenador do Departamento de Arritmologia do Hospital de Santa Cruz

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Jornal Digital Vila de Rei – 28 de outubro de 2026 

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