Arrastados por promessas feitas pelas elites políticas, os portugueses caíram no engodo da vida fácil; muitos foram aqueles que conseguiram empregos até ao final das suas vidas, garantidos a todos os que tiveram a sorte de ir trabalhar para o Estado.
Inicialmente o setor privado, estava quase equiparado a nível salarial; mas começou a perder para o primeiro, fruto das lutas sindicais que ao longo dos últimos 30 anos, caracterizaram os movimentos do sindicalismo dentro do aparelho do Estado; no setor privado a força sindical foi sempre fraca e inconsistente, e depressa começou a perder em todas as frentes; para além da precaridade no posto de trabalho, hoje a média de salário no privado é inferior a metade dos colegas do setor público.
Portugal apresenta-se com o maior fosso assimétrico de toda a Europa; sendo uma tremenda injustiça se tivermos em linha de conta, que o estado consome mais de 50% do que o país produz; para ser mais concreto, seria o mesmo que colocarmos um peso num prato da balança e oito no outro, se forem contabilizados o número de pessoas de ambos os lados.
As políticas erradas ao longo de três décadas, com culpas diretas dos partidos do arco da governação, e indiretas de outros que foram exigindo o que já não havia para dar, vieram dar a este beco sem saída; a que os portugueses não são de todo inocentes, porque até recentemente tinham um padrão de vida que era baseado no endividamento, sendo assim que atingimos uma virtual classe média.
A hora da verdade bateu-nos à porta com todas as consequências; das políticas mal avaliadas a investimentos feitos pelo Estado, os fundos comunitários que não foram utilizados em conta e medida, e outros que se esfumaram, em obras como estádios e autoestradas, que no presente pouca utilidade tem.
Os efeitos estão à vista de todos; o peso da máquina do Estado levou o país a contrair dívida após dívida, um monstro em forma de bola de neve que arrasa o país, e que não tem fim à vista.
Ao longo de vários anos, Portugal colocou no mercado milhares de milhões de dívida pública de longo prazo, que ao tempo o governo classificou de grande sucesso; esse dinheiro que entrou em Portugal a juros altíssimos, quase ao dobro dos empréstimos da troika, foram para fazer frente a dificuldades de tesouraria, e para pagamentos de juros e amortizações de dívida de curto prazo, e muito pouco sobrou para a economia; os credores que foram quase sempre os mesmos, tudo fizeram para manter o hospedeiro vivo, para lentamente o irem sugando.
As elites políticas de hoje e do passado recente, têm que dizer a verdade ao país; para que seja transmitido às futuras gerações e aos jovens de hoje, os danos que lhes estamos a infligir, sem que em nada tenham contribuído para o merecerem.
Já o afirmei anteriormente, ser uma imoralidade que esta geração e a anterior, tenham vindo a tirar benefícios, em detrimento das nossas crianças, e de outras que que ainda não nasceram; porque vão ser elas as principais vítimas dos muitos erros por nós cometidos nos últimos 30 anos, a que erradamente chamaram de crise.
A verdade tem que ser reposta com toda a clareza, para que os portugueses compreendam o que lhes está a acontecer; os intervenientes políticos com responsabilidades na atual situação, devem explicar que a crise portuguesa, tem uma tipologia diferente de outros países que já saíram dela, e que no nosso caso nem afetou muito a banca.
O atual governo está em parte a “limpar o lixo”, que governos anteriores atiraram para debaixo da carpete; só que não têm a arte para explicar o que nos está a acontecer; limitando-se a cortar em casos que devem, e noutros onde não deveriam tocar.
É pela falta de diálogo que os sentimentos da maioria dos portugueses não se revêm neste governo; tem legitimidade para governar, mas não tem habilidade para explicar.
Temos que ser honestos, e não atribuir só a culpa a quem não a tem no seu todo, porque o mal já vem de trás; falhou quem prestou assistência financeira a Portugal, e quem falha assume os riscos; deveriam ter estudado que tipo de economia temos e o povo que somos; Portuga tem o mais extenso mar da Europa, temos que nos lançar sem perda de tempo, nas tradicionais atividades da agricultura e pescas.
Existe capacidade para produzir em quantidade e boa qualidade, com preços muito abaixo dos importados; é preciso sacudir o país que está paralisado, e retira-lo das cinzas; o povo português foi o que mais regrediu em toda a Europa nos últimos 40 anos, e o nosso sentido de justiça também não anda muito forte; andamos a culpar-nos uns aos outros e a terceiros, quando na realidade somos nós os únicos culpados do nosso atraso e empobrecimento.

J. Vitorino – Jornalista Diretor